30/05/2012

Projetistas


Todos nós somos, em essência, projetistas. Podemos não perceber, mas nosso ser é regido por aquilo que projetamos. Projetos gigantes, minúsculos ou medianos fazem, de certo modo, a vida valer a pena.
Conquistar um grande amor é sem dúvida um projeto audacioso. Seu fruto, porém, vale sempre o esforço despendido, muitas vezes de Hércules.
Existem projetos quotidianos como, por exemplo, preparar um bom almoço, trocar a roupa de cama, assistir uma peça teatral, faxinar a casa, terminar algum livro ou mesmo dedicar uma manhã a leitura integral de um jornal qualquer.
O fato é que projetos precisam ser a priori planejados, depois executados e por fim contemplados. O regozijo se dá no fazer em si.
Não podemos esquecer que projetos são coisas que fazemos e nunca coisas que compramos. Comprar é apenas um ato consumista e perecível, que em nada preenche a alma.
Eu, como bom projetista, também tenho meus planos. O maior deles é ser, num futuro próximo, pai.
Dos projetos médios, tenho “as cartas”. Escrevo uma por semana e as mando para as pessoas que, em minha vida, são especiais. É um pequeno e redundante muito obrigado.
Nas férias de verão, junto com Simone e um casal de uruguaios amigos nossos, planeamos percorrer 800 quilômetros de bicicleta. De nosso minúsculo mundo Richthof até Travel Münde, no mar Báltico. O temido caminho do muro que dividia as duas Alemanhas e hoje abriga uma extensa área de floresta será desbravado por nós, que já nos sentimos verdadeiros aventureiros.
Projetos pequenos eu tenho centenas de milhares. Quero florir a sacada de minha casa, cultivar tomateiros, construir um jardim de ervas, ajudar Thommy na redescoberta de sua autonomia, passar férias com minha excêntrica família em Erfurt, organizar as gavetas, reparar minha bicicleta ... (ad infinitum)
Projetos recém-terminados, ainda em fase de contemplação, tenho a peça teatral  Leôncio & Lena, além da histórica e mística viagem a Portugal que valerá alguns textos...
Enfim, sendo agora cinco e meia da tarde, com esta crônica a ser terminada, dedicar-me-ei ao importantíssimo projeto “Jantar para saciar a fome”. 


16/05/2012

Preto, a mais linda flor a se cheirar


Fatalmente e infelizmente um dia acontecerá com você. Em algum momento da sua vida alguém contará uma daquelas piadas racistas e preconceituosas que circundam o mundo dos fracos. Lembro que quando era criança alguém me perguntou se eu já tinha visto flor preta. Respondi, sem pensar, que não. A inevitável resposta “é que preto não é flor que se cheire” veio na sequência e deixou-me, além da indignação, uma dúvida que carreguei por anos. A verdade é que mesmo sabendo que se tratava de algo muito grave, nunca saí do âmbito flora da questão e durante muito tempo questionei-me sobre a existência de uma flor negra. O fiz em aulas de biologia, pesquisei em enciclopédias, fossei, sem sucesso, aqui e acolá. Eis que, com o advento da internet até encontrei algumas fotos, mas nada palpável.
Aos poucos a chama da curiosidade se apagou, até que eu, em “meu” filosófico jardim, por uma questão de falta de pessoal, fui selecionado para cuidar das flores. Normalmente permaneço no âmbito das leguminosas e pouco passeio pelos canteiros floridos, mas desde fevereiro esse mundo desconhecido, escondido entre a casa de vidro e o túnel de lona, se abre para mim e, tudo o que plantei, agora floresce.
O encantador nisso tudo é que eu não tinha ideia do que havia plantado. A conjunção entre os nomes e o vir-a-ser de cada flor ocorre paulatinamente na medida em que elas desabrocham. Narcisos, amores-perfeitos, gerânios e por fim, a petúnia negra (por quem me apaixonei). Seu cheiro é suave, envolve na medida certa, é doce e vicia. Quem a tem poderia cheirar seu negrume uma vida inteira sem enjoar. Por isso lhes digo que o preto tornou-se, para mim, a mais linda flor a se cheirar...   

Foto da minha petúnia negra

08/05/2012

Nostalgia & Döner Kebap

A nostalgia é inerente a quem vive fora do país. Tem dias que somos dominados por saudades tolas, que fogem ao trivial, como aquela que sentimos da família e dos amigos. Quando estamos a quilômetros de distância, nos falta o absurdo, o cotidiano, o improvável.
Há quem sente falta do vento quente que sopra no pico de nossos verões, de ir ao banco de bermudas e havaianas, de fazer trilha em mata de verdade, de ver saguis, cobras, orquídeas, passar por lombadas, desviar de buracos, ir a praia, encharcar-se em um aguaceiro, assistir telenovela... São coisas que não cabem em malas de no máximo 32 quilos.
Eu particularmente sempre curti um bom e enigmático “x” salada, afinal o "x" é sempre a incógnita da equação (nunca sabemos o que vamos encontrar lá dentro). Confesso que assim como muitas coisas, tive que encontrar um substituto as minhas necessidades e o fiz, pasmem, com os turcos. Os turcos que aqui vivem desenvolveram um sanduíche alcunhado de Döner Kebap. O negócio é tão popular e se proliferou de forma tão absurda que quase toda esquina alemã tem uma casa vendendo o dito Döner. A estrutura delas assemelha-se aos nossos botecos. Nada de luxo, muito menos de higienização absurda. Quem faz o tal sanduíche normalmente veste, assim como os nossos chapeiros, jaleco encardido. Só que aqui, em vez da chapa, eles prensam a carne e a assam em um espeto gigante que fica rodando.
O preparo da iguaria é simples. Eles abrem o pão quentinho, selecionam lasquinhas de carne bem passada, completam com uma sortida salada, molho especial e... Guten Appetit!

04/05/2012

O pesadelo do cio da terra


Tenho tido um pesadelo terrível que se repete já há alguns dias. Tudo começa com uma linda imagem da horta onde eu trabalho.  Os pés de milho já estão grandes, os tomateiros exibem rechonchudos e avermelhados frutos, ervilhas se exibem depois do orvalho, robustos pepinos se escondem no mato verde. Ao fundo é possível ver a casa de vidro e os caminhos que nos levam até a pequena loja onde vendemos orgulhosos nossos orgânicos produtos. Descendo uma lomba com o carrinho de mão abarrotado de leguminosas e visivelmente satisfeito encontro-me eu.
Eis que de repente, sem nenhuma explicação, inicia-se um processo irremediável de desertificação. Tudo é tão rápido que em uma fração de segundo encontro-me num campo vazio a semear insistentemente a terra que ignora meu ser. Os colegas alemães riem e o italiano que trabalha conosco no filosófico jardim balança a cabeça negativamente dizendo... Esses brasileiros...
Exatamente nesse momento acordo desnorteado. Uma gama de desagradáveis sensações percorre meu corpo. Fico enjoado, chego a secar uma garrafa de água. Devido ao suor excessivo e o cheiro azedo, me obrigo a tomar uma ducha gelada e só muito tempo depois volto a dormir.
Uma das explicações para o funesto e repetitivo sonho é o fato de eu, por esses dias, estar a semear a terra no filosófico jardim. Sempre tive medo de que as sementes jogadas por mim não vingassem. Ano passado aconteceu com um polonês colega nosso. Antes de proceder com a semeadura, o homem discursou sobre o movimento cósmico dos braços no ato de lançar os grãos, harmonia com a natureza, direção do vento e mais uma porção de coisas que ele aprendeu com um guru belga (existem gurus na Bélgica?).    
Passadas algumas semanas, os canteiros permaneciam em terra, sem um só sinal de germinação. Assim eles ficaram, para desolo de nosso amigo, uma longa data até que alguém se dispôs a ressemear e salvou a lavoura. O polonês virou piada e, depois de muita humilhação, foi embora de nosso filosófico jardim. 
Fica a pergunta que assombra minhas noites... Farão as pequenas sementes que levo com carinho em meu verde ventre a mesma coisa que fizeram com o  polonês?

29/04/2012

O direito pela livre escolha de terra


Totalmente recuperado, voltei ao filosófico jardim. Com o consentimento de meu médico, posso novamente e felizmente “pegar no pesado”. Faltando uma semana para a feira da primavera, por aqui impera o caos. No entanto, para minha sorte, fui escalado para cuidar das plantas em vaso. São pequenos vegetais que tenho que plantar um a um, com o máximo de cuidado e especial atenção ao tipo de terra utilizada.
Sabem aquela imagem da mãe desesperada cujo filho pequeno só come determinado alimento e fica choramingando quando não é atendido? Sinto-me assim diante das pequenas mudas.   É como se eu as ouvisse reclamar quando, porventura eu coloco um ingrediente a mais no seu composto ou troco o tipo de terra. Às vezes elas até murcham em absoluta tristeza. Digo sempre que nossas plantas são manhosas. Escolhem sua terra com uma minúcia digna de quem tem demais.
Explico-me. Os tomateiros, por exemplo, gostam de terra fofinha, escura, enriquecida com punhados de calcário e lascas de chifre de boi. Se não realizamos tal desejo, simplesmente secam.  Já os jovens pés de repolho só aceitam terra "cozida".  Para eles, tivemos que comprar o “Dampfer” que, através do vapor, coze a terra e mata os micróbios. As abóboras e os pepinos preferem terra misturada ao composto de cozinha. Quanto mais malcheirosa, mais contentes eles ficam.
Os Morangos, até serem plantados, se deleitam em bacias de água cristalina. Anseiam em ser hidropônicos como as alfaces brasileiras. E os aspargos? Temos que fazer montes de areia limpa para eles ficarem lá, escondidos, dando uma de albinos, pois se pegam um pouco de sol, enverdecem.
Agora, o pior aconteceu quando recebi as berinjelas. Ingenuamente perguntei se tinha que adicionar algum elemento a terra que eu utilizaria. “Elemento?” Perguntou-me o jardineiro chefe assustado. “Essas berinjelas só aceitam terra vulcânica da região de Vogelsberg, caso contrário, se recusam a crescer”.